Para quando a Terra passar a ser madastra…

Vamos ser frontais. Quer nós tratemos muito bem ou muito mal o nosso planeta casa, a Terra tem um prazo de validade que pode ser mais ou menos estendido, consoante a qualidade do tratamento. O filme que hoje chega aos cinemas portugueses, o Interstellar faz-nos refletir um pouco sobre isso mesmo através de um conjunto de efeitos especiais fantásticos capaz de nos suspender dos nossos afazeres diários durante 120 minutos. O filme descobre possibilidades que dão pistas aos teóricos da física, um registo bem premente das diferenças do cinema norte-americano para a “quietude apenas consumidora de recursos preciosos” do cinema europeu.

A referência evidente de Interstellar é o 2001: Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick (1968) – e a partitura de Hans Zimmer, mesmo que mais sóbria do que lhe é habitual, é escandalosamente derivativa no modo como evoca constantemente a reverberação quase infinita de Assim Falava Zaratustra. O novo filme do autor de Memento (2000) e O Cavaleiro das Trevas (2008) parece querer alargar a todo um filme a meia-hora final de 2001, a viagem para lá da “porta das estrelas” que desintegrava as leis do tempo e do espaço em direcção ao in-imaginável – mas, no processo, está também a entrar pela transcendência mística da Árvore da Vida de Terrence Malick (2011), onde o princípio e o fim, o passado e o futuro, eram entendidos como um único todo sensorial.

A ver… Pelo menos promete ser um grande blockbuster.